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Uma crônica Chamada Saudade

Quando eu caí do cavalo e quebrei o cóccix doeu demais. Doeu meses.

Quando eu caí e abri o queixo no quintal de casa e levei cinco pontos, doeu muito. Muito mesmo.

Quando meu pai me bateu na cara, e quase me virou do avesso, eu era menina, pequenina, doeu, doeu demais, por fora e por dentro.

Quando bati a cabeça e fiquei dias no hospital, vagando, tentando ficar acordada, com um galo maior que um ovo, também doeu.

As cólicas de rim, as cistites, as sinusites, as estigmas todas que vieram por anos doeram muito.

As enxaquecas intermináveis, que nem a morfina conseguia aliviar, me deram vontade de não continuar, de tanto que doía (dói).


Mas, o que mais dói é uma tal de SAUDADE...


Saudade da minha mãe que já passou, saudade dos bichinhos que não estão mais aqui. Do meu cavalo tordilho, meu Álamo, meu sorvetão de flocos! Saudade das quedas frias de Camanducaia, aonde eu me perdia feliz, do Sítio de Pedra Bela, das quermesses na Pedra Grande,  do Tio “Floriá”  e o São Jorge na Lua, dos meus olhos de Loba na escuridão! Saudade do meu pai ( sim, o mesmo que me bateu e doeu) que o destino não permite que eu veja quando eu queira... Saudade de mim ontem, pequena, gordinha, crescendo, mudando, sorrindo, chorando. Como dói, cada uma dessas saudades...


Mas dói como o cão, a tal da saudade de AMOR...


Do cheiro que é chama, do beijo, do nosso encaixe perfeito.

Ah... Esse beijo que não esqueço, o abraço que alivia minhas feridas, o enlace das almas...

Saudade dessa ausência combinada dos corpos, das mentes, das almas. 

Saudade da espera tão ansiada, da presença prioritária.

Saudade de olhar junto, de pensar junto, das músicas, dos vídeos, dos filmes, das mensagens trocadas, dos livros de piratas ainda não lidos, das poesias cifradas que virão do fundo do tempo, das pazes depois dos mal-entendidos...

Das palavras, dos sentimentos, da primeira vez juntos, da segunda, da vez que logo virá.

Do SILÊNCIO ABSOLUTO, de olhar no fundo dos olhos, depois de tudo...


Essa saudade que deixa as horas longas, lacunas impossíveis de se preencher, mas mesmo assim, com os pensamentos lotados ainda dá tempo de lembrar de  Carly Simon, daquele labirinto, daquele dia que não amanheceu conosco abraçados ainda.. 


E não dá para refrear aquela lágrima que brota, da tua saudade...


Essa saudade é querer saber de tudo, é não querer nunca mais saber de nada.


É tudo isso que escrevi, que senti enquanto digitava, que fica até depois da última palavra, é o que talvez venhas a sentir ao terminares de ler...


Saudade, o bom mesmo, Loirinho, é poder matar essa saudade!