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Retrato

Qualquer um pode olhar...


Para ti, quiçá, a lembrança do desejo realizado do passado próximo, o gosto do doce pecado, para qualquer outro, um retrato sem graça, uma imagem sem nexo, um quê de iniquidade.


Indubitavelmente, sempre, um singular ponto de vista único, escolhido através de um arsenal infinito de possibilidades, cada qual se debruçando apaixonadamente sobre uma imagem inédita. Ponto que ganha múltiplas existências através de cada retina, sendo invertido e projetado em cada cérebro como imagem de acepção ímpar!


Nada é inteiramente meu, (nem meu corpo, meu dolo, meu amor, minha expressão, meu olhar) ou teu, ou de outrem. Apenas nos cabe a parte que podemos reconhecer, imaginar, fantasiar, pela condição de distinguir a partir do que se suporta, deseja e anseia.


Tudo existe unicamente pela acepção que ganha de cada um, de mim, de ti, de quem vê.


O que para ti for comum pode me parecer belo, ou mesmo  indispensável; assim como o que me é delirante pode ser absolutamente apático para ti.


Assim me vem a adoração e respeito por esse inviolável direito que qualquer um possui de mirar a mesma coisa e ver o que quiser ou puder.


Quando é dita uma verdade seja qual for (que só pode ser de quem profere) é unicamente um dom do outro torna-la plena de nexo ou povoada de tantos três-pontinhos que nem mereça crédito.


Esse lado me arrebata. Onde o outro valoriza o que quer q seja feito, dito, mostrado ou realizado. 

Coloco assim que a existência de absolutamente tudo se inventa no observante, na resposta acarretada.


Mas vivenciando a cultura do “eu me basto” caminhamos para a frivolidade e o isolamento onde o individualismo nos quantifica com resultados e nos furta de nossa humanidade, senhora do desejo, e nome próprio.


No momento em que as palavras ditas por um, recebem outro sentido, através do entendimento do outro, o um é obrigado a ouvir-se novamente, através do enlevo desse encontro com o outro. E esse agora “nós”, essa cumplicidade, essa coautoria torna-se algo novo, e tudo muda, então. 


Nada anormal. No efeito do que dizemos ao outro, de consentimento ou renuncia, nos forçamos à renovação pelo benefício do plausível encontro.


Meu retrato em preto e branco,  teu livre arbítrio: solidão ou  paixão a ser tocada.