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Que outra veria além do teu casulo?

Não percebestes para onde estás perdendo o gosto do que a vida tem de exato, de bom, de melhor? Há tanta oferta de comida apodrecida, plastificada e insípida, que estás arruinando o paladar para as coisas, aventuras, pessoas, lugares, vida de verdade.


Diga rápido, como é acordar ouvindo um respirar cumplice, verdadeiro enquanto dormes? Ah! Não alcanças ainda como é isso imensamente melhor do que despertar com a ressaca de quem fuma pela vida errada e vazia? O vazio de dias ocupados demais...  


Não dá para passar tantas existências apenas com os que curtem só a casca, o casulo, enquanto é de seda, as conveniências materiais supridas, como uma teta de vaca...  


E o que te arde e faz tanto alarde lá dentro? Que não poderás manter em perpétuo segredo?  Não se pode mentir uma existência inteira! Escapas de tua cela uma manhã e outra, e ainda outra, uma tarde, uma noite, e um dia chegará que escaparás para sempre. A verdade flutua, tão certo como após a noite vem o dia!  O casulo se desmanchará... Esse do qual sempre precisas escapar, escapar, escapar cada vez mais e mais, até que um dia não tornarás, pois terás completado integralmente a  tua metamorfose...


E que ou quem serás então? Se passastes as vidas a fingir outras vidas? Se o casulo, a casca que precisavas justamente para testar outros e a ti mesmo terá desaparecido... Para onde tornarás? Não haverá volta, José... 



Ah.. A espera da presença

Que realmente importa

Para saber que um de teus dias

Valerá a pena....



Desejamos-nos um ao outro desde onde cada um surgiu. Achamos que o mundo era fora de si, de nós e nos atrevemos a sonhar juntos, uma promessa, sonhos nunca acordados antes do meio-dia, no instante que nunca amanhece! A certeza de que nenhum gosto é melhor do que o da saliva um do outro... Que é o que nos mata a sede, a sede de seguir sempre, que nada mais pode matar! 


Sem falsas morais ou charlatanices, nus frente a frente nos reconhecemos sempre, de infinita data, formas diversas, cores e tantos sabores, que mesmo diferentes, se mantém, desde quando olhos nos olhos, nos cheiramos pela primeira vez.


Quando estivestes com medo da vida, lembraste da minha loucura de rir de tudo, onde fui/sou força. E, quando vagaste no limbo, nos meus delírios pensaste e sentiste o meu chão.


E chegará o dia em que, finalmente, precisarás sentir-te especial e de fato A MA DO, quando estiveres longe de casa, quando evocares tristes lembranças, um momento de solidão, para chorar ou para ter algum pensamento ousado...  Então, chegarei, sem que me chames, devagar, lentamente, primeiro olhando de longe, depois mais perto, para fazer-te sorrir, e mais tarde matar-te a fome de nossos nomes, de nossos anseios, acarinhar-te os medos... Lentamente, passo a passo, porque sei de tudo! Sei da tua inocência, dos sonhos poéticos, sei dos teus pecados, de cada mentira, sei tudo que nunca, sequer, te confessastes!


Passeei por séculos sem cerimônias, por teu casulo, aninhei tua lagarta sem pudores, alimentei teus desejos com todos os amores, mordi tuas crenças, engoli tuas sementes, cuspo fora teus receios... Conheço cada detalhe, cada cor, cada entalhe das asas desta borboleta que, invariavelmente, serás! 


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