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Jura Secreta

Loirinho,


Quantas presunções sobre o vindouro, o futuro que já floreceu para o hoje...  

Pensa rápido, responde-me sem demora: para onde foi a meninice?


Imagine que eu e minha prima ficávamos horas, montando nossa cidade futurista, debaixo da mesa, com um escorredor de louças como janela, à base de tampinhas de garrafa, rolhas, e tudo que pudéssemos abarcar de nossas mães, numa tentativa de prever o que haveria nos tempos de nossos filhos (os quais nunca tive, ela tem três... são um pouco meus também!) e mais as coisas que talvez nunca conseguíssemos compreender por a culpa daquele, então, “maldito” monolito de 2001, uma odisseia no espaço!


Quantas expressões determinam os donos de cada época?

E eu que não me largo do Tempo.


Como são frescas aquelas lembranças da vida debaixo da mesa, de cima do cavalo tordilho, dentro do ribeirão nos dias quentes, chego a sentir a água fria no rosto...  tão viva... Tão viva quanto recentemente, do mesmo jeito senti-me, ao viver algo sem possibilidade de arrependimento, sem quiçá, nem talvez!



Será, meu querido, que ao sermos agraciados com toda essa tecnologia, precisamos revisitar o tempo no qual fomos tecidos para saber quem realmente somos?


Se isso lhe faz algum sentido, vale a pena guardar livros ( O Livro Perigoso para Garotos) - não DVDs, BluRays, SSDs, que serão obsoletos em breve -   com um nome escrito para este tempo. Tempo em que mais uma promessa de mudança de mundo está perto... 2019... Talvez você possa brindar sobrinhos, amigos, pimpolhos ou a si mesmo daqui a alguns anos, ajudando no reconhecimento próprio.


E, não sei se percebe, estou com o centro mais quieto.  Ando refletindo sobre a existência, não de agora, mas ainda mais agora, um sentido pelo qual a vida não seja somente uma obrigação em dias intermináveis, noites insones, saídas sem motivos, pagamentos e acertos de contas. Pois pude estabelecer o significado, na diferença que criamos no contato com o outro. Esse aprendizado mágico de decompor e sermos reformulados no encontro.


Cuidado com o que se pede, pode-se conseguir, então quando eu rogava por um bom motivo para continuar escrevendo, para voltar a escutar música, dançar e cultuar a Lua, acontecemos. Através de olhares perdidos em um quiosque,  de leves toques, olhares e outros motivos, transmutando pouco a pouco, num compasso lento, as missivas de nossas vidas. Algo mais e mais interior, não preciso dizer que o que experimentamos nesses contatos virtuais, nesses abraços e beijos reais que ocorreram, deixam saudades e vontades, que nos fizeram fugir, mas tão certo quanto Volver: El viajero que huye tarde o temprano detiene su andar...


E em meio a tantas mensagens, imagens, carinhos, músicas e poemas, pulamos para aquele momento antes que o dia amanheça.


Como fomos capaz de fazê-lo? Em que lugar guardamos a energia, a capacidade de contaminarmos um ao outro, a sentir e dividir sentimentos? Justo eu que vivo me esquivando dos meus, vivo enclausurando-os como se fossem aqueles cães ferozes que à menor proximidade exalam odor de sangue fresco da boca... Vivo criando disfarces e contextos que convençam aos outros e principalmente a mim de que os sentimentos a solta ou te deixam exposto, em situação de risco ou te transformam em ultrapassado. Vivo guardando minha admiração para tentar coexistir na resistência dos astutos, experts em dribles, em matemática, em inteligências... Encontrar-te foi como reencontrar a mim, aquela que aprisionei nos grilhões há séculos, no fundo de um labirinto cujo mapa havia sido jogado fora... 


Eu agradeço nossas tantas e tão longas existências, Loirinho, e a dos que nos restituiram a nós mesmos, decretando que desta vez, possamos ser sempre a sublime parte do nosso melhor e do nosso desafio em cumprirmos a Jura Secreta em Ferro e Fogo...